Declaração de Fé da Fraternidade Mundial

A obra de salvação realizada por Deus

CAPÍTULO 5

A OBRA DE SALVAÇÃO REALIZADA POR DEUS

1. Graça comum

Deus manifesta graça comum a toda humanidade como também graça especial, pela qual as pessoas entram na salvação. Por essa graça comum, o pecado é refreado, seres humanos pecadores recebem bênçãos de Deus e são capacitados a praticar boas coisas. Essa graça comum proporciona o fundamento para a sociedade humana e possibilita o trabalho nas artes e nas ciências. É o Espírito Santo que torna possível essa obra nas artes e nas ciências, de sorte que o progresso cultural e a civilização humana são boas dádivas de Deus, tornadas possíveis a despeito da queda da humanidade no pecado.

2. A chamada e a eleição da parte de Deus

A chamada de Deus aos seres humanos é para que se arrependam e creiam. Ninguém é capaz de atender a essa chamada sem a ação do Espírito Santo. Embora muitos possam receber a mensagem pelo ouvir ou lê-la diretamente da Bíblia, ou indiretamente na literatura cristã, nem todos são escolhidos. Em vez de abandonar a raça humana na sua condição caída, Deus elegeu soberana e graciosamente alguns para a vida eterna. Somente aqueles cujos coração e mente são iluminados pelo Espírito Santo são capacitados a aceitar os dons prometidos de perdão de pecados e de aceitação por Deus.

3. A natureza da regeneração

Pela obra do Espírito Santo, o pecador morto recebe vida da parte de Deus, e a implantação dessa vida resulta numa nova orientação voltada para Deus e sua justiça. Somente o Espírito Santo é que pode realizar a mudança que produz santidade, sem a qual ninguém verá Deus. Embora essa obra de regeneração produza mudanças de caráter, os cristãos são pessoas singulares, pois, ainda que todos eles possuam o Espírito Santo, todos são diferentes. O que eles partilham em comum é a implantação de uma nova vida, significando que agora estão numa união espiritual indissolúvel com Cristo. O Novo Testamento expressa essa união ao afirmar que os cristãos estão “em Cristo”, ou seja, tornam-se “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo”. Por estarem assim unidos em Cristo, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, eles estão completos nele. Todos os crentes cristãos têm o Espírito de Cristo e estar em união com Cristo também significa que mantêm um relacionamento vital uns com os outros. Eles partilham de uma salvação comum e têm objetivos e aspirações comuns.

4. Os efeitos da regeneração

A obra de Deus na regeneração não precisa de repetição. Tendo sido justificados por Deus, os cristãos manifestam essa mudança de estado pela mudança da sua condição espiritual. A conversão marca o início consciente de uma nova vida, de sorte que os crentes procuram viver em conformidade com a sua nova natureza, pondo suas afeições nas questões espirituais e eternas. No âmago da nova vida estão o arrependimento e a fé, unidos como expressão da conversão.

5. A fé

A graça de crer é dom de Deus. A fé, portanto, é o ato de receber as bênçãos da salvação pela fé pessoal em Cristo o Salvador e pelo compromisso com ele. Essa fé é o instrumento pelo qual a revelação divina e todas as bênçãos prometidas são apoderadas, recebidas e desfrutadas. É a convicção de que a mensagem da Bíblia é verdadeira e que a apropriação pessoal dos méritos e da obra de Cristo é essencial. A fé verdadeira repousa sobre seu objeto, Cristo Jesus, abraçando-o como Salvador, e por um ato de comprometimento a alma descansa somente nele para a salvação.

6. A Justificação

A justificação é o ato de Deus que se segue à chamada eficaz realizada pelo Espírito Santo e a consequente resposta do pecador com arrependimento e fé: “aos que chamou, a esses também justificou”. Na justificação, Deus declara os pecadores justos à sua vista, considerando seus pecados como perdoados e contando a justiça de Cristo como pertencente a eles. A justificação não é uma simulação da parte de Deus de que os pecadores são justos quando na verdade são culpados. Para que a justificação seja verdadeira e consistente com a santidade de Deus, é indispensável que tenha um fundamento meritório. É absolutamente preciso que exista retidão para que Deus seja justo na sua declaração de justificação. Os pecadores são justificados como base na retidão suprida por outro, a retidão do Senhor Jesus Cristo, a qual é considerada como pertencente a eles. Essa imputação da justiça de Cristo é fundamental para a fé cristã.

7. A justiça de Cristo é a base da nossa justificação

A justiça de Cristo abrange sua vida de perfeita obediência a todo mandamento da lei de Deus e sua morte na cruz, pela qual suportou o castigo da ira santa de Deus por causa dos pecados de todo seu povo; uma obra selada pela sua ressurreição triunfal. Os crentes agora partilham do mesmo estado de retidão de Cristo, que satisfez todas as exigências da lei de Deus em lugar e em favor deles. O fundamento da justificação do pecador é exclusivamente a perfeita justiça de Cristo.

8. A harmonia entre Paulo e Tiago em seus ensinamentos sobre a justificação

Não há conflito entre o ensinamento de Paulo e o de Tiago quanto à justificação. Paulo refere-se à justificação como perdão e aceitação diante de Deus; Tiago insiste que, se essa justificação for real, ela se manifestará numa vida de obediência.

9. A adoção dos crentes em Cristo

A posição do Senhor Jesus Cristo como eterno Filho incriado de Deus é de natureza única. Apesar disso, ele não se envergonha de chamar aqueles a quem salvou de irmãos e irmãs. Esses filhos adotivos de Deus são herdeiros da herança que Cristo lhes assegurou, a plena medida das bênçãos de redenção, e por isso são descritos como “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo”.

Como filhos de Deus, os crentes partilham de todas as bênçãos supridas por Deus para sua família e, pelo testemunho interno do Espírito Santo, reconhecem e se dirigem a Deus como Pai. Eles são alvo do amor de Deus, da sua compaixão e do seu zelo por suas necessidades. Os filhos de Deus têm também o privilégio de partilhar dos sofrimentos de Cristo e da sua subsequente glorificação. Um privilégio adicional dos filhos de Deus, o que confirma a adoção deles, é provarem do castigo paternal de Deus. A eles se assegura que “Deus vos trata como filhos; pois que filho há que o pai não corrige?”. A unidade dos filhos de Deus em um corpo é também um privilégio a ser desfrutado e uma responsabilidade que requer amor e ministério mútuos.

As plenas bênçãos da adoção só serão desfrutadas no retorno glorioso do Senhor Jesus Cristo. A adoção tem uma dimensão atual, mas também uma dimensão escatológica, que é um elemento de esperança cristã. Assim, “nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”. A adoção só estará completa quando Cristo der novos corpos ao seu povo na ressurreição e os crentes desfrutarão “a liberdade da glória dos filhos de Deus” com a criação renovada.

10. A obra de santificação do Espírito Santo

O Espírito Santo trabalha na vida dos que foram justificados e adotados para fazê-los santos e transformá-los à semelhança de Cristo. A obra de Deus nos crentes inclui a vontade de fazer e de cumprir aquilo que ele requer. A obediência ativa aos mandamentos de Deus é essencial. A santificação exige a mortificação de tudo quanto é pecaminoso na vida humana e o desenvolvimento de novos hábitos piedosos e padrões de pensamento e de vida.

11. O atingimento da perfeição cristã

Durante a vida presente nenhum crente está inteiramente livre do pecado, além disso a santificação progride em ritmos variáveis. A disciplina de Deus sobre seus filhos amados também serve para os santificar. A obra de santificação será completada pelo poder e graça de Deus. O espírito é plenamente santificado na morte, reunindo-se “aos espíritos dos justos aperfeiçoados”. Na ressurreição, o corpo do crente partilhará dessa perfeição, sendo feito semelhante ao corpo glorioso de Cristo. Por fim, todo crente trará plenamente “a imagem do [homem] celestial”.