Declaração de Fé da Fraternidade Mundial

A tradição

CAPÍTULO 9

A TRADIÇÃO

1. A existência e validade das tradições apostólicas

Toda igreja cristã vive de acordo com a regra de fé herdada da era apostólica. As Sagradas Escrituras são a única forma autêntica e normativa dessa regra, pela qual todas as demais crenças e práticas devem ser medidas. É indubitável que as igrejas apostólicas tinham costumes que não estão registrados na Escritura nem são ordenados por ela, todavia essas tradições não são obrigatórias às gerações posteriores de cristãos. De modo semelhante, embora seja possível que algum dia se redescubram escritos apostólicos perdidos, eles não serão considerados como Sagradas Escrituras, porque não foram transmitidos desde os tempos apostólicos como parte da regra normativa.

2. A autoridade dos credos e das confissões

No curso da sua história, a igreja tem adotado credos e confissões de fé com a finalidade de esclarecer o ensinamento da Escritura. Esses documentos, e outras decisões semelhantes de vários organismos eclesiásticos, desfrutam da autoridade possuída por aqueles que os adotaram e devem ser assim considerados e respeitados pelas gerações posteriores. No entanto, eles não são infalíveis e onde for possível provar que estão em desacordo com o ensinamento da Escritura ou que seu ensinamento pode ser mais claramente expresso de maneira diferente, a igreja tem a liberdade de alterá-los de modo adequado.

3. A reação dos reformadores às tradições herdadas

Os reformadores do século 16 empreenderam uma avaliação completa das tradições da igreja e abandonaram aquelas crenças e práticas claramente contrárias ao ensino espiritual. Alguns foram mais longe e descartaram tradições que não tinham o amparo da Escritura, embora não fossem também necessariamente contrárias a ela. Um exemplo disso foi a comemoração do Natal em 25 de dezembro, que não tem nenhum fundamento bíblico mas testifica claramente da doutrina do Novo Testamento acerca da encarnação de Cristo. Tradições desse tipo podem ser preservadas, modificadas ou descartadas a critério da igreja local, desde que por isso não fique comprometida nenhuma doutrina bíblica.

4. Modelos de culto e de governo eclesiástico

Cada igreja desenvolveu padrões de culto e de governo que ao longo do tempo se converteram em tradições por si mesmos. Até onde essas práticas não forem contrárias ao ensinamento da Escritura e continuarem a cumprir a tarefa para a qual foram inicialmente imaginadas não há razão para não serem preservadas. Nada obstante, cada igreja local tem a liberdade de modificar essas tradições conforme as considerar apropriadas. De modo particular, as igrejas que surgiram da atividade missionária estrangeira podem ter herdado dos missionários práticas não facilmente adotadas pelos nativos. Igrejas assim têm a responsabilidade de examinar o fundamento bíblico dos costumes transplantados e devem ser motivadas a modificá-los, se essa mudança puder tornar o testemunho do evangelho mais eficaz nas circunstâncias delas. Apesar disso, nenhuma igreja deveria abolir, modificar ou adotar nenhuma tradição ou prática sem considerar o efeito que tal mudança pode ter no testemunho da comunidade cristã como um todo.

5. A preservação apropriada de certas tradições

Algumas tradições tornaram-se tão profundamente arraigadas e universais no mundo cristão que alterá-las poderia não alcançar nada e levar a divisões desnecessárias no seio da igreja. Um exemplo disso é o costume de adorar a Deus no domingo que, embora claramente praticado na igreja primitiva, não é especificamente ordenando no Novo Testamento. Há circunstância em que sociedades cristãs particulares, por exemplo em certos países muçulmanos, acham mais conveniente cultuar em outro dia da semana, mas nenhuma igreja deve assumir para si a responsabilidade de abandonar o culto aos domingos só porque não é requerido especificamente pela Escritura. Nesses casos, a unidade visível do mundo cristão deve ser mantida, se com isso não se comprometer nenhum princípio teológico.